Adolescência significa: “CRESCER PARA”… onde?

A palavra adolescência deriva do latim adolescere, ad significa ‘para’ e olescere  ‘crescer’, ou seja, adolescência em sua etimologia quer dizer ‘crescer para’. Lindo isso não? Gosto muito de pesquisar o significado das palavras para embasar meus pensamentos porque nos fazem refletir sobre algumas situações. Neste caso, o significado literal da palavra já traz uma incógnita: CRESCER PARA… onde? Para… fazer o que? Ninguém me perguntou se eu quero! E aqui podemos imaginar o quanto essa fase já chega recheada de mistérios.

Em algumas sociedades ou religiões existem alguns ritos de passagem quando a criança adquire determinada idade, por exemplo, na religião judaica quando o menino ou a menina atingem seus 13 anos, comemora-se respectivamente o bar mitzvah e o bat mitzvah cerimônia na qual ambos assumem a responsabilidade de seguir a observância religiosa tradicional. E, eu particularmente acredito que a nossa sociedade ocidental deveria marcar de alguma forma essa passagem para que a insegurança não prevaleça. Você deve estar pensando: “Mas, e a puberdade e toda aquela questão da mudança corporal já não são suficientes”? Talvez fosse se conseguíssemos trata-la com mais significado. Infelizmente ainda são comuns meninas que começam a menstruar e não vão ao ginecologista porque não tiveram relação sexual e meninos que acreditam poder sair transando com qualquer mulher que queira só porque agora ejaculam. Não é bem assim, temos doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, e outras questões das quais os jovens necessitam de orientação e mais do que isso, precisam se sentir confiantes para respeitarem seus desejos, só assim terão relacionamentos saudáveis. Claro que alguns vão responder: “Ah, hoje em dia eles pesquisam tudo na internet e a escola ensina”, sim, isso realmente acontece, mas será que interpretam corretamente a informação que recebem? Pensam que aquilo pode mesmo acontecer com eles? É com isso que me preocupo.

A adolescência dura aproximadamente 10 anos, pode começar aos 10, 11 ou 12 anos e seguir até os 20 anos (pode ser um pouco antes ou depois também). Como já citado acima, na sociedade ocidental, é marcada principalmente pela entrada na puberdade (veja nossos próximos posts sobre o tema) e pela busca por uma identidade social. Alguns dizem que é a “fase da rebeldia” e frases do tipo “é adolescente, fazer o que”, “daqui a pouco essa fase passa”, “adolescência, na minha época não tinha isso, frescura” surgem como explicação para determinados comportamentos. E você sabia que algumas delas até tem sentido? Dentro da própria psicologia existem linhas teóricas que divergem ao tratar o tema. Alguns dizem que a adolescência é uma criação social e surgiu da necessidade em se preparar mão de obra qualificada para o mercado de trabalho, necessidade essa surgida após a Revolução Industrial, onde as crianças não estavam aptas a exercer determinadas funções, além da exploração de mão de obra infantil e as pessoas mais velhas já não tinham tanta destreza para outras funções foi necessária à criação de leis que determinassem quando o individuo é criança ou adulto e quando se torna responsável por seus atos (vide lei da maioridade penal). Pensando nessa explicação é possível entender quando nossa avó nos diz “que no tempo dela não havia isso” e que começou a trabalhar na roça com 12 anos. As famílias viviam de suas terras e precisavam produzir seu próprio sustento o que levava inclusive a terem um número grande de filhos para que estes ajudassem nas colheitas.

Atualmente, vemos um contexto diferente, a grande maioria vive do trabalho industrial e para isso precisa estar preparado. Calligaris em seu livro “Adolescência” diz se tratar de uma fase complicada porque apesar do jovem ter um corpo formado, podendo reproduzir-se, ele ainda não pode trabalhar para se sustentar e nem fazer o que acha certo ou errado. É um tempo de espera, no qual é preciso se PREPARAR ou CRESCER PARA…

A busca por sua identidade se torna um grande objetivo, a família, apesar de ser um porto seguro, já não atende mais a todas as suas necessidades, é preciso sair e descobrir o mundo, por isso é tão comum os adolescentes mudarem de opinião diversas vezes. Hoje gostam de um estilo musical, tem um jeito de se vestir, são amigos inseparáveis de alguém e amanhã tudo mudou. É interessante observar esse movimento e servir como suporte em situações de insegurança e indecisão. Uma amiga certa vez fez uma observação interessante, ela me disse: “Fazer um jovem escolher, aos 17 ou 18anos, uma profissão para seguir a vida inteira é uma crueldade sem tamanho”. Fiquei confusa na hora, mas depois concordei porque realmente isso é horrível, eu mesma mudei de área aos 30 anos, como podemos achar que alguém ao concluir o ensino médio está apto para isso?

A cobrança por essas respostas são difíceis e talvez nunca tenhamos uma resposta assertiva de como agir, porém podemos pensar em nossa própria experiência e tentar preparar os jovens para lidar com uma sociedade de consumo cujo sistema econômico ordena: PRODUZA, SEJA ÚTIL! E dentro disso orientá-los para procurar por algo que melhor represente aquilo em que acreditam no momento. Importante destacar que para isso, nós, também precisamos nos observar e perceber quais expectativas criamos, muitos desejam que os filhos sejam ótimos profissionais e até mesmo que sigam determinada profissão porque “dá dinheiro”, deixando de levar em consideração o desejo do filho ou suas melhores habilidades. Imagine um adolescente cuja inteligência musical é destaque, mas não investe na carreira (não estou falando de cantor e sim de profissões cujo talento para perceber notas, ritmos, melodias seja essencial) devido ao desejo dos pais em ter um filho médico? Complicado não? Realizar seus sonhos através da vida do filho pode gerar muita angústia, neste caso, um pai ou mãe pode “forçar” o filho a seguir determinada carreira porque um dia desejou ser aquele profissional, mas por algum motivo não conseguiu. Isso é muito comum, por isso, prestem atenção em suas expectativas também.

Existem também os estudiosos que afirmam ser a adolescência uma fase do desenvolvimento e por isso é possível verificar mudanças físicas, cognitivas e psicossociais. Mas isso é assunto para a próxima semana, continue acompanhando o Psiquê? e vamos descobrir juntos as façanhas neste mundo chamado Adolescência.

Até lá…

Abraços,


Juliana Ferreira
Psicóloga - CRP 06/130793 em Consultório Psiquê?

Curiosidade e superação são seu lema. Optou pela psicologia na segunda fase de sua vida, quando questões complexas do tipo “Quem sou eu?” começaram a martelar em sua cabeça. Amante da psicologia analítica (junguiana), encontrou nela a interpretação da psiquê (mente e alma) através dos símbolos e das mitologias. Observar os sonhos, os desenhos e toda a arte produzida pelo ser humano é o seu hobby atual.


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