O patinho feio e a Adolescência. Pontos em comum?

Se pudesse escolher uma história para registrar minha fase de adolescente (passou faz uns bons anos), sem sombra de dúvidas a do Patinho Feio seria eleita. Sim, é verdade, porque essa fase nos leva quase a beira de um colapso nervoso. Lembro-me até hoje da primeira menstruação… Ahhhhhhhhhhhhhhhhh! Eu só tinha 9 anos e obviamente achei que… ESTAVA MORRENDO… tinha sangue “vazando” entre minhas pernas e não parava por três dias, não teve jeito, recorri a minha mãe e ela na maior CALMA me disse que aquilo era normal e daquele fatídico dia em diante todo mês “sangraria”. Confesso que entendi o ditado “Mulher é bicho ruim, sangra todo mês e não morre” naquele momento e me perguntei: “Que porcaria é essa?”.

Sei que atualmente vocês adolescentes já estão mais acostumadas, e muitas até esperam que esse dia chegue, porque é um indício de não ser mais criança, mas espera um minuto, e nossas dúvidas mais íntimas? Você faz 12 anos e não vai mais ao pediatra (na minha vez com 9 anos imagina a cara do pediatra na consulta… E a minha cara? Muito pior, achando que estava tuuuuuudo errado. Pois é, tem coisas que não queremos perguntar para a mãe, mesmo que ela se intitule sua “amiga”, simplesmente pelo fato dela ou ser “sua mãe”, ou pelo fato de responder “Isso é normal, com o tempo acostuma” não é mesmo?

Neste momento sempre oriento as adolescentes que me procuram a não terem vergonha de pedir uma consulta com o ginecologista, já ouvi mães que me procuraram para reclamar que eu estava incentivando suas filhas a terem relação sexual… Mais uma vez nesta hora eu peço a todos os anjos do Universo que pare o mundo para eu descer, mas como isso não é possível, eu respiro fundo e explico: “Existem dúvidas que as adolescentes e até nós mulheres “adultas” preferimos perguntar para um estranho ou um profissional do que para um familiar não é mesmo?”. Só uma observação aqui – adoro este momento, pois é nessa hora que todos os músculos da face apontando uma acusação começam a se diluir –  Muitas vezes julgamos as nossas perguntas como tolas, hoje em dia pesquisamos na internet e depois guardamos a resposta dentro de um baú em nossa mente fechado a sete chaves, mas não é melhor esclarecer de uma vez e dar à adolescente a responsabilidade e o direito de conhecer a si mesma? Quantas mulheres da minha idade que não conhecem a anatomia da sua vagina ou não sabem como funciona seu órgão reprodutor? Gente, isso é sério! E as dúvidas com gravidez e doenças sexualmente transmissíveis? As escolas tentam, mas baseada em minha experiência, percebo que não é o suficiente, é preciso uma conversa clara, na qual as dúvidas mais simples possam ser respondidas.

Posso afirmar que apesar de todo o movimento feminista que luta por direitos iguais para homens e mulheres, ainda é complicado falar sobre sexualidade com as adolescentes. Muitas começam a namorar e ter relação sexual sem nenhuma orientação, sem conhecer seu corpo e nem saber o que é um orgasmo. Não respeitam seu corpo e suas vontades e acreditam na ideia – muito difundida por sinal, do “sexo por sexo”. Vejam bem, não quero reprimir e nem julgar quem decide pensar ou agir dessa maneira, mas para mim sexo é algo muito simbólico, é neste momento que você passa a ser um com o outro, independente de haver uma fecundação e geração de um bebê, dois corpos se unem, como uma chave numa fechadura, isso é lindo não é? E, olhando por este lado, acredito que se unir a outra pessoa na intimidade, entregando seu corpo a outro ser humano é no mínimo muita “responsabilidade” e sinal de aceitação de si mesma (segurança), não?

Essa parte de entregar o corpo a outro ser humano também é bem representativa, pense no patinho feio, ele não se encaixava em sua família, todos zombavam dele, resolveu fugir e procurar abrigo em outros lugares. Conheceu outros animais, outros lugares, mas ainda assim não se sentia seguro para encarar as adversidades, até que um belo dia ele acordou e havia se transformado num cisne. Pra mim, é assim na adolescência, chega o dia em que a família não é suficiente, não me reconheço mais em meu corpo, meus seios cresceram, nasceram pelos onde nem imaginava, meus traços faciais e minha voz mudaram e agora sinto necessidade de sair e conhecer o lado de fora, preciso encontrar os meus iguais, aprender a escolher/decidir e arcar com as consequências das minhas decisões, não dá mais para perguntar o que a mãe ou o pai acham (na verdade sempre dá, mas me refiro àqueles assuntos que não temos coragem de conversar com a família, mesmo com aquela tia “confidente”), se sentir estranho, sem rumo e sem algo que te preencha é um tanto comum sabia?

O medo sempre surge porque quando criança a mãe dizia o que fazer e qualquer problema era só usar a célebre frase “Minha mãe que falou ou mandou”. Começam as cobranças por suas atitudes, e é difícil manter certas decisões. Certa vez uma pré-adolescente disse não querer crescer porque enquanto criança se resolvesse atravessar a rua correndo todos iriam socorrê-la caso um carro surgisse e iam abraçá-la, porém se fizesse isso na sua idade todos a chamariam de “louca” e dariam uma bronca porque não viu o automóvel. Ela estava correta em sua afirmação, e infelizmente, isso faz parte do tornar-se adulto.

Voltando ao nosso conto, um dia você se tornará cisne e olhando para trás verá que o percurso foi longo, porém produtivo. Conheceu pessoas, lugares, grupos a quem você se identificou e até uns caras “legais”. Você dançou, brincou, chorou e deu muita risada, escolheu uma música perfeita para ouvir ao lado do “crush” e depois percebeu que ele nem era tão “legal” assim e passou. Por isso peço que não tenha medo de questionar, seja uma investigadora, uma caçadora de talentos e procure descobrir os mistérios que a vida te traz nesta fase tão turbulenta da adolescência.

 Isso também vale para os garotos, o medo do novo, sempre assusta, mas não dá para paralisar e ver o tempo passar sem aproveitar, não é mesmo? Falando em garotos, acompanhe o próximo post e descubra mais sobre o desenvolvimento masculino nesta fase.

Até a próxima…

Abraços


Juliana Ferreira
Psicóloga - CRP 06/130793 em Consultório Psiquê?

Curiosidade e superação são seu lema. Optou pela psicologia na segunda fase de sua vida, quando questões complexas do tipo “Quem sou eu?” começaram a martelar em sua cabeça. Amante da psicologia analítica (junguiana), encontrou nela a interpretação da psiquê (mente e alma) através dos símbolos e das mitologias. Observar os sonhos, os desenhos e toda a arte produzida pelo ser humano é o seu hobby atual.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *